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Última revisão: setembro 21, 2003.

 

______________A r t i g o s______________

O ECOTURISMO

CONCEITOS & PRINCÍPIOS

Por Sérgio Salazar Salvati
sssalvati@uol.com.br

Segundo projeções da WTO, o ecoturismo já é praticado por cerca de 5% do contingente total de viajantes, com perspectivas de um crescimento acima da média do mercado turístico convencional (cerca de 20% / ano), transformando-se num dos mercados mais promissores, principalmente em países com significativas reservas naturais, como os da América Latina.

Desde de meados dos anos oitenta que o nome "ecoturismo" passou a integrar o mercado brasileiro. Com a ampliação da demanda e da oferta ecoturística, a atividade passou a chamar a atenção das autoridades governamentais brasileiras que tratou de estabelecer programas específico para este segmento. O primeiro programa estabelecido pela Embratur em 1987, Projeto Turismo Ecológico, não emplacou.

Atualmente, o ecoturismo tem recebido um tratamento diferenciado das autoridades governamentais brasileiras do turismo. Um Grupo de Trabalho organizado pelo Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo e pelo Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal, em Goiás Velho / GO, em 1994, constituído por técnicos da Embratur, por especialistas e empresários do setor, buscou formular nossa conceituação para o ecoturismo, inspirado em nossos anseios e em nossa experiência, onde foram traçadas, também, as Diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo.

Hoje o país procura implementar esta política através de programas em nível regional e local, porém há inúmeros problemas burocráticos, conceituais e financeiros para sua implementação efetiva, além de movimentar interesses políticos em função do potencial de atração de recursos que a atividade pode atrair.

O conceito oficial brasileiro diz que o Ecoturismo é:

"...um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem estar das populações envolvidas."

Os objetivos básicos da Política Nacional de Ecoturismo forma definidos e visam:

  • compatibilizar as atividades de ecoturismo com a conservação de áreas naturais;
  • fortalecer a cooperação inter-institucional;
  • possibilitar a participação efetiva de todos os segmentos atuantes no setor;
  • promover e estimular a capacitação de recursos humanos para o ecoturismo;
  • promover, incentivar e estimular a criação e melhoria da infra-estrutura para a atividade de ecoturismo e
  • promover o aproveitamento do ecoturismo como veículo de educação ambiental.

Fonte: BRASIL - MICT/MMA, 1994 - Diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo.

 A partir desta definição e aliados aos conceitos desenvolvidos por diversos especialistas internacionais, definiu-se os princípios e critérios a serem adotados pelo ecoturismo (Projeto OCE - Oficinas de Capacitação em Ecoturismo, 1994), que permitem sua identificação diferenciada perante o turismo convencional, consagrando conceitos e práticas que vem sendo adotadas também por parte do empresariado do turismo convencional, tornando-se tendências que deveriam ser seguidas por qualquer atividade turística responsável.

Princípios do Ecoturismo

  • Conservação e uso sustentável dos recursos naturais e culturais;
  • Informação e interpretação ambiental;
  • É um negócio e deve gerar recursos;
  • Deve haver reversão dos benefícios para a comunidade local e para a conservação dos recursos naturais e culturais;
  • Deve ter envolvimento da comunidade local.

Critérios do Ecoturismo

  • Manejo e administração verde do empreendimento;
  • Associações e parcerias entre os setores governamentais e não governamentais locais, regionais e nacionais;
  • Educação Ambiental para o turista e para a comunidade local;
  • Guias conscientes, interessados e responsáveis;
  • Planejamento integrado, com preferência à regionalização;
  • Promoção de experiências únicas e inesquecíveis em um destino exótico;
  • Monitoramento e avaliação constante;
  • Turismo de baixo impacto;
  • Código de ética para o mercado do ecoturismo

Fonte: Projeto OCE - Oficinas de Capacitação em Ecoturismo, 1994

O chamado ecoturismo é urna atividade que, em primeiro lugar, promove o reencontro do homem com a natureza de forma a compreender as ecossistemas que mantêm a vida. As atividades são desenvolvidas através da observação do ambiente natural, através da transmissão de informações e conceitos ou através da simples contemplação da paisagem.

No turista, este processo auxilia no desenvolvimento da consciência da própria existência em equilíbrio na natureza visando, ainda, a manutenção da qualidade de vida das gerações atuais e futuras. Esse aprendizado permite que o turista tenha a possibilidade de transformar e renovar seu comportamento cotidiano. A realidade urbana com a qual o turista convive rotineiramente, passa a ser questionada gerando reflexões sobre poluição destes grandes centros, manutenção de áreas verdes, destinação e reciclagem de lixo e qualidade de vida. Objetiva-se, assim, a incorporação e tradução destas reflexões na forma de comportamento e posturas no seu ambiente de origem.

Atividades de ecoturismo procuram promover programas sérios e infra-estrutura segura e profissional, oferecendo e praticando a educação ambiental de forma multidisciplinar com guias especializados. O desenvolvimento de roteiros e programas diferenciados a várias tipos de ambientes, associadas à transmissão de informações e conceitos, levam com relativa facilidade ao aprendizado. Mas o grande legado deixado no turista é a compreensão e a consciência da importância de se preservar o ambiente natural, a história e a cultura dos lugares de visitação.

O ecoturismo

Considerado como uma alternativa que enquadra-se nos modelos de desenvolvimento sustentável, o ecoturismo vem ganhando espaço dentro do mercado turístico. Apesar de não haver uma definição universal, e considerando que o meio ambiente é a base para o desenvolvimento de suas atividades, o ecoturismo principia o uso sustentável dos recursos naturais, visando sua utilização à longo prazo. Segundo projeções da Organização Mundial do Turismo, o ecoturismo já é praticado por cerca de 5% do contingente total de viajantes, com perspectivas de um crescimento acima da média do mercado turístico convencional (cerca de 20% / ano) e transforma-se num dos mercados mais promissores, principalmente em países com significativas reservas naturais, como os da América Latina (brasil, 1994). Países megadiversos como Peru, Venezuela, Brasil, Filipinas e China tiveram um aumento em sua demanda turística internacional entre 60 e 139 % entre 1993 e 1997 (SECRETARIA DE COORDENAÇÃO DA AMAZÔNIA/MMA & Conservation International, 2000)

Porém, estes dados podem ser colocados em suspeição quando não se tem uma definição clara em nível mundial do que é, de fato, a atividade de ecoturismo. Para efeito de ilustração, algumas definições em ecoturismo foram coletadas em um estudo da OEA (1998), as quais estão no Quadro 2.

A organização The International Ecotourism Society (TIES), a maior e mais conhecida organização não-governamental definiu o ecoturismo como sendo "viagem responsável a áreas naturais, visando preservar o meio ambiente e promover o bem estar da população local." ( TIES, 1995). Trata-se do conceito mais difundido mundialmente. Para a rede WWF, o ecoturismo "pode ser descrito como o turismo realizado em áreas naturais, determinado e controlado pelas comunidades locais e gerando benefícios para elas e para áreas relevantes para a conservação da biodiversidade". (WWF, 2001)

Na Bolívia, a regulamentação nacional em turismo descreve a atividade como um tipo de turismo que é desenvolvido em áreas naturais relativamente não perturbadas, usando os recursos sustentavelmente, encorajando a participação ativa de comunidades locais, criando uma consciência ambientalista e promovendo a preservação do patrimônio natural e cultural pela oferta adequada de serviços. (OEA, 1998)

Quadro 2 - Algumas definições de Ecoturismo coletadas pela OEA (1998)

“Ecoturismo refere-se a progressiva e responsável viagem que conserva o meio ambiente e beneficia as comunidades locais. Ecoturismo envolve não somente observação, mas também informação, interação e participação responsável. O verdadeiro ecoturismo envolve:  promoção da ética ambientalexperiência efetiva com a natureza e vida selvagem e benefícios para o meio ambiente e para as comunidades locais. (Wesche, 1995)

"Ecoturismo é um segmento de mercado turistas ambientalmente conscientes e que são interessados em observação da natureza." (Wheat, 1994)

"Ecoturismo é uma forma de turismo inspirado principalmente pela história natural de uma área, incluindo suas culturas indígenas. O ecoturismo visita áreas relativamente não desenvolvidas com um espírito de apreciação, participação e sensitividade. O ecoturismo pratica o uso racional dos recursos naturais e da vida selvagem e contribui para as áreas visitadas através da geração de emprego e renda, diretamente beneficiando a conservação do local e do bem-estar dos residentes locais. A visita deve envolver a apreciação e a dedicação dos ecoturistas em assuntos de conservação em geral, e especificamente nas necessidades do local. O ecoturismo também implica em um manejo que aproxima o país ou a região anfitriã ao compromisso em estabelecer e manter os sítios com a participação dos residentes locais, marketing apropriado, estímulo à regulamentação e o uso dos rendimentos das empresas para financiar o manejo de áreas tão bem como o desenvolvimento comunitário." (Ziffer, 1989)

E no Brasil o conceito mais difundido vem da esfera governamental. Em 1994, o Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo e o Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal estabeleceram um Grupo de Trabalho, com objetivos de discutir e definir um conceito nacional de ecoturismo e formular as Diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo (BRASIL, 1994).

De acordo com estas Diretrizes, defini-se o conceito de Ecoturismo como sendo:

 "Um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem estar das populações envolvidas".

 Três grandes eixos temáticos sustentam o conceito brasileiro de ecoturismo:

Sustentabilidade

Se o ecoturismo não for planejado corretamente, o seu desenvolvimento está fadado ao fracasso econômico e à degradação social e ambiental. Isto se dá porque as bases que sustentam os negócios são os ambientes natural e cultural, na forma de recursos atrativos. Se esta base de recursos não permanecer conservada, não haverá mais o interesse da visitação. A sustentabilidade envolve, portanto, a criteriosa utilização destes recursos, principalmente em parques e reservas. Metodologias e estratégias devem ser buscadas para se diagnosticar todas as atividades econômicas locais, visando a sua diversificação para a melhor geração de renda e emprego, com a devida manutenção do equilíbrio ambiental.

 Educação do visitante

O turismo deve ser sempre informativo e educacional. Além disso, o ecoturismo proporciona ao visitante a compreensão e a consciência da importância de se preservar a natureza, a história e a cultura dos lugares de visitação. A prática da educação ambiental no ecoturismo contribui para que o visitante tenha a possibilidade de transformar e renovar seu comportamento cotidiano. A realidade urbana com a qual o turista convive rotineiramente passa a ser questionada gerando reflexões sobre poluição, manutenção de áreas verdes, destinação e reciclagem de lixo e qualidade de vida. Objetiva‑se, assim, a incorporação e tradução destas reflexões na forma de comportamento e posturas no seu ambiente de origem.

Envolvimento e benefícios às comunidades locais

O desenvolvimento sócio-econômico sustentável de uma região deve ser o objetivo maior do turismo. E isto somente será atingido se houver investimentos na capacidade da comunidade em se preparar para recebê-lo. O envolvimento da comunidade deve ser desde a fase de planejamento, participando e auxiliando na tomada de decisões sobre que tipo de ecoturismo deve ser desenvolvido e quais as suas necessidades e expectativas. Os benefícios para a comunidade somente virão com investimentos na economia local, na infra-estrutura básica (saneamento, educação e saúde) e o seu efetivo envolvimento na capacitação profissional para o turismo.

 Segundo Martha Honey (1999) o “Ecoturismo compreende viajar a áreas frágeis, normalmente protegidas, que ainda estão em estado integral de conservação e busca causar baixo impacto e preferencialmente se manter em pequena escala. Ajuda a educar o viajante; propicia fundos para a conservação; beneficia diretamente o desenvolvimento econômico e “empodera” politicamente comunidades locais; além de promover o respeito às diferentes culturas e aos dereitos humanos.” (Honey, 1999:25) Segundo a autora, o verdadeiro ecoturismo possui as seguintes sete características:


1.      Envolve viagens a destinos de natureza. Estes destinos são freqüentemente áreas remotas, habitadas ou não, e que normalmente estão sob algum tipo de proteção ambiental, seja nacional, internacional ou privada.

2.      Minimização do Impacto. O turismo causa danos. O ecoturismo se esforça para minimizar os efeitos adversos dos locais de hospedagem, trilhas e demais infraestruturas, seja pela utilização da reciclagem de materiais encontrados in-loco, pela reciclagem e manuseamento seguro do lixo ou pela
utilização de recursos energéticos renováveis. A minimização do impacto requer também que o numero de turistas e seu comportamento seja controlado a fim de limitar os danos ao meio ambiente. O ecoturismo é geralmente classificado como uma industria não extrativa e não consumista, mas pode,
entretanto incluir empreendimentos como o programa de Safári e Caça CAMPFIRE no Zimbábue, basta que estes sejam industrias sustentáveis baseados em recursos renováveis.

3. Criação de uma consciência ambiental. Ecoturismo implica em educação, tanto para o turista como para os residentes das comunidades visitadas. Antes da saída, as operadoras de turismo devem fornecer ao viajante, material de leitura sobre o país, os costumes, o ecossistema visitado bem como um código de conduta tanto para o viajante quanto para a
industria. Esta informação deve ajudar a educar o turista sobre o local visitado, bem como a minimizar seus impactos negativos no decorrer de sua visita seja com respeito ao meio ambiente ou a cultura local. Guias bem treinados e poliglotas que possuam habilidades em historia natural e cultural, interpretação do meio ambiente, princípios éticos e comunicação são essenciais para o desenvolvimento do ecoturismo. Ainda o ecoturismo deve promover a educação dos membros das comunidades próximas, crianças e o
publico em geral do país anfitrião. Para alcançar tal objetivo, deve-se oferecer preços reduzidos na hospedagem, nas entradas dos parques e atrações aos nacionais, assim como viagens gratuitas aos estudantes nacionais bem como aqueles que vivem próximos á atração turística.


4.      Prover benefícios financeiros diretos para a conservação. O ecoturismo deve ajudar no levantamento de fundos para a proteção, pesquisa e educação ambientais por meio de inúmeros mecanismos, tais como taxa de entrada dos parques, taxa sobre companhias de turismo, hotéis, linhas aéreas, e taxas aeroportuárias bem como contribuições voluntárias. Muitos sistemas de parques nacionais foram originalmente concebidos com o objetivo de proteger a área, facilitar a pesquisa cientifica e na África para promover o esporte da caça. Somente com o passar do tempo, é que os parques nacionais abriram o acesso ao publico geral, e foi recentemente que estes têm sido percebidos como potencial fonte de recursos para a investigação cientifica e conservação.

5.  Prover benefícios financeiros e para a população local. O ecoturismo prega que parques nacionais e outras áreas de conservação somente irão sobreviver se, como o cientista costa-riquense Daniel Janzen coloca, existirem "pessoas felizes" em volta dos perímetros. A comunidade local deve estar envolvida com, e receber renda bem como outros benefícios tangíveis (água potável, rodovias, postos de saúde, etc...) da área de conservação e suas dependências e facilidades turísticas. Áreas de Camping, locais de hospedagem, serviços de guia, restaurantes, e outras concessões devem ser gerenciados por ou em parceria com a comunidade nos entornos de um parque nacional ou outros destinos. O ecoturismo deve ainda promover a utilização de agencias de aluguel de carros e agencias de turismo de propriedade de pessoas nacionais de tal forma que o lucro permaneça no país em desenvolvimento. Mais importante, se o turismo deve ser percebido como ferramenta para o desenvolvimento rural, ele deve ajudar no deslocamento do controle econômico e político para a cooperativa, a vila ou o empreendedor e este é um dos pontos mais difíceis de se obter sucesso.

6.      Respeito à cultura local. O ecoturismo não é somente "verde" mas também menos intrusivo culturalmente, e menos explorador que o turismo convencional. Prostituição, drogas e mercado negro são muitas vezes sub-produtos do turismo convencional, o ecoturismo se esforça para ser respeitoso culturalmente e ter o mínimo impacto possível tanto no meio ambiente como na população do país. Isto não é fácil, visto que o ecoturismo envolve vagens para áreas remotas onde muitas vezes as comunidades pequenas e isoladas têm tido pouco contato e experiência com estrangeiros. Ainda, assim como no turismo convencional, o ecoturismo envolve uma relação desigual de poder entre o visitante e a comunidade, seja inclusive pelo aspecto monetário de trocas que eventualmente ocorrem. Parte de ser um ecoturista responsável implica no aprendizado anterior, dos costumes locais, respeito aos códigos de vestimenta e outros códigos de conduta social, não se intrometendo na comunidade a não ser que convidado, seja individualmente ou como parte de um grupo bem organizado.

7.      Suporte aos direitos humanos e movimentos democráticos.

T O P O


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